Estaquia de Lavandula dentata: a ponta do ramo faz diferença?

Pesquisa brasileira comparou estacas apicais e basais de Lavandula dentata. O Tio Lavanda explica resultados, limitações e o que observar no viveiro.

RADAR CIENTÍFICO SANTA LAVANDA • EPISÓDIO 7 • 23 DE OUTUBRO DE 2026

Salve, salve! Aqui é o Tio Lavanda. Quem já tentou fazer muda de lavanda conhece aquela dúvida: será que tanto faz cortar a ponta do ramo ou usar a parte mais velha, lá de baixo? E o tamanho da estaca, muda alguma coisa? Hoje vamos falar de Estaquia de Lavandula dentata com base em pesquisa brasileira. Mas atenção: isso não significa que qualquer galho, em qualquer lugar, vai virar muda.

Por que essa pesquisa merece nossa atenção?

Quando planejamos um lavandário, precisamos pensar não só no número de plantas, mas na origem e na qualidade das mudas. Entender como as raízes se formam é assunto de produtor, não apenas de viveirista. O estudo escolhido foi publicado em 2012 na Revista Brasileira de Plantas Medicinais. Não é descoberta desta semana. Na busca que fiz, encontrei pesquisas mais recentes sobre outros temas da dentata, mas nenhuma comparação recente entre ponta e base do ramo tão diretamente útil ao produtor.

O que os pesquisadores fizeram?

Claudine Maria de Bona e colaboradores trabalharam com Lavandula dentata na região de Pinhais, no Paraná. Em um experimento, compararam estacas de 5, 8, 10 e 13 centímetros. Em outro, compararam estacas de 10 centímetros retiradas da parte apical — a ponta do ramo — e da parte basal, mais próxima da base. As estacas foram colocadas em bandejas com substrato comercial e mantidas em ambiente protegido com nebulização intermitente. Depois de aproximadamente dois meses, avaliaram enraizamento, número, comprimento e massa das raízes.

O resultado que chamou minha atenção

Na comparação entre posições do ramo, 97,9% das estacas apicais enraizaram, contra 93,7% das basais. A diferença parece pequena quando olhamos só a porcentagem. Mas agora vem o detalhe: as apicais formaram, em média, 13,2 raízes por estaca; as basais, 2,98. Percebe? Duas mudas podem ser classificadas como enraizadas e, ainda assim, apresentar sistemas radiculares bem diferentes.

Estacas de 10 cm — comparação por posição no ramo
Origem Enraizamento Raízes por estaca (média)
Apical (ponta) 97,9% 13,2
Basal 93,7% 2,98

Fonte: Bona et al. (2012). Ambiente protegido, substrato comercial e nebulização intermitente.

No ensaio de comprimento, o enraizamento foi de 100% em todas as medidas testadas naquelas condições experimentais. Mesmo assim, estacas de 10 e 13 centímetros tenderam a produzir raízes mais numerosas e pesadas do que as muito curtas. Os autores consideraram estacas apicais de pelo menos 10 centímetros a opção mais adequada no conjunto das avaliações.

Então basta cortar 10 centímetros e pronto?

Não! Esse é justamente o cuidado que precisamos ter ao traduzir ciência para o campo. A pesquisa usou plantas matrizes específicas, substrato comercial, bandejas e nebulização. Ela não demonstrou que teremos 97,9% de enraizamento no quintal, em qualquer estação ou com qualquer manejo. Também não mediu como aquelas mudas produziram flores e óleo essencial depois de implantadas no campo. O estudo ajuda a escolher material para propagação; não prova produtividade futura nem retorno financeiro.

Como eu transformaria isso em observação na Santa Lavanda

Aqui na Santa Lavanda, em Londrina, acompanhamos a Lavandula dentata no campo desde 2017. Essa vivência ensina que observar a planta é tão importante quanto seguir uma medida. Mas não fomos autores nem executores do experimento publicado. Se eu organizasse um teste de viveiro, começaria com matrizes sadias e identificadas. Separaria estacas apicais e basais, mantendo o mesmo substrato, a mesma umidade e o mesmo período de avaliação.

Registraria a data do corte, a origem da matriz, o comprimento e o número de estacas que realmente desenvolveram raízes. Depois de cerca de dois meses, compararia não apenas a porcentagem de enraizamento, mas o volume e a distribuição das raízes, a formação de brotações e a condição geral da muda. Sem esse controle, podemos achar que a diferença veio da ponta do ramo quando, na verdade, mudamos várias coisas ao mesmo tempo.

E qual é a ligação com os outros episódios?

No episódio 1, conversamos sobre a vida ao redor das raízes. No episódio 2, vimos que a composição do óleo não é igual em todo lote. No episódio 5, água e nutrientes entraram na conversa. Agora estamos voltando ao começo da jornada: como formar uma muda bem enraizada.

O recado para quem quer começar a plantar

Antes de comprar centenas de mudas ou montar um viveiro, conheça o material vegetal, a origem das matrizes e as condições que você consegue oferecer. Não é o número de mudas na bandeja que determina a qualidade do projeto. É a soma de escolhas bem feitas. Foi para ajudar nessa etapa que criamos o Programa Raízes. Nele, a conversa começa pela terra, pelo planejamento da área e pelas condições do cultivo, antes de sair plantando. Conheça o Programa Raízes e planeje seu cultivo de lavanda.

Leia o estudo científico original

Bona, C. M.; Biasetto, I. R.; Masetto, M.; Deschamps, C.; Biasi, L. A. (2012). Influence of cutting type and size on rooting of Lavandula dentata L. Revista Brasileira de Plantas Medicinais, 14(1), 8–11. DOI: 10.1590/S1516-05722012000100002. Os resultados citados pertencem aos pesquisadores, não à Santa Lavanda.

Agora é sua vez: vamos conversar sobre a lavanda?

Você já fez mudas de Lavandula dentata usando a ponta do ramo e a parte mais velha? Qual delas formou raízes melhores no seu viveiro — e quanto tempo levou? Conte sua experiência nos comentários. Quero saber também de qual cidade você fala e como controla a umidade das estacas. A conversa de quem planta ajuda todo mundo a fazer perguntas melhores!

Um abraço,
Tio Lavanda — Marcos Romani
Santa Lavanda • Aroma e Vida

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