Salve, salve produtores rurais! Essa é a notícia que estávamos esperando!
Eu, Marcos Romani, acredito que o Brasil pode se tornar o maior produtor de Lavandula dentata do mundo. Pode parecer uma afirmação ousada. Mas ela nasce de uma ideia simples: não precisamos de uma única fazenda gigantesca. Podemos construir uma rede de pequenos produtores, cultivando com método, compartilhando conhecimento e abastecendo diferentes mercados.
Agora temos um motivo a mais para conversar sobre essa visão. No dia 5 de outubro de 2026, a Anvisa publicou regras específicas para a produção artesanal de determinados cosméticos. É uma mudança importante para quem transforma matérias-primas em produtos, inclusive para quem trabalha com plantas aromáticas como a lavanda.
Não estou dizendo que o Brasil já lidera a produção mundial de Lavandula dentata. Ainda não temos dados para sustentar isso. Estou compartilhando minha visão de futuro, construída a partir do campo e das pessoas que estão aprendendo conosco desde 2017.
O Brasil é feito de milhões de produtores familiares
Segundo o Censo Agropecuário 2017 do IBGE, aproximadamente 76,8% dos estabelecimentos agropecuários brasileiros são da agricultura familiar: cerca de 3,9 milhões de estabelecimentos. Esse segmento ocupava cerca de 23% da área agropecuária e concentrava 67% das pessoas ocupadas no setor. Agricultura familiar não é sinônimo exato de propriedade pequena, mas os números mostram a força das famílias que trabalham com a terra.
Agora imagine uma parcela dessas famílias encontrando, onde houver viabilidade agronômica, uma oportunidade de diversificar a propriedade com a lavanda. Não significa que toda terra sirva para o cultivo; significa que existe um país inteiro de empreendedores rurais com potencial para aprender, experimentar e construir novas atividades.
A nova regulamentação da Anvisa: o que realmente mudou?
A Resolução da Diretoria Colegiada nº 1.045/2026 e a Instrução Normativa nº 474/2026 regulamentam a Lei nº 15.154/2025. Segundo a Anvisa, as normas criam um regime específico e simplificado para determinados produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes fabricados artesanalmente.
Entre as mudanças previstas estão a dispensa de registro ou notificação prévia do produto junto à Anvisa, a dispensa da Autorização de Funcionamento de Empresa (AFE), o licenciamento sanitário automático na vigilância local sujeito à fiscalização posterior e a dispensa da contratação obrigatória de responsável técnico. O produtor continua responsável pela segurança e qualidade do que fabrica.
A Anvisa informa que as duas normas entram em vigor 60 dias após sua publicação, em 5 de outubro. Portanto, em 16 de outubro de 2026, ainda estamos no período de preparação. Ninguém deve interpretar a notícia como licença para descumprir as regras sanitárias atuais.
Quem pode ser produtor artesanal?
O enquadramento se destina à fabricação em pequena escala, predominantemente manual, com domínio completo do processo, desde a escolha de matérias-primas até a embalagem, e sem terceirizar etapas da fabricação. Reetiquetar produtos industriais, reenvasar mercadorias ou simplesmente montar kits não equivale à fabricação artesanal contemplada pela norma.
Esse detalhe importa muito para quem cultiva lavanda. O agricultor que produz flores ou óleo essencial não se torna automaticamente fabricante de cosméticos. É necessário definir o que será vendido, qual é a finalidade do produto e qual regime regulatório se aplica. Cada elo da cadeia tem suas próprias responsabilidades.
Quais produtos de lavanda podem fazer parte dessa oportunidade?
A regulamentação contempla categorias como sabonetes sólidos, produtos sólidos para banho, xampus e condicionadores sólidos, óleos e manteigas corporais, perfumes de base alcoólica, desodorantes axilares em barra e odorizantes de ambiente. Na comunicação oficial da Anvisa, essas categorias aparecem como exemplos do novo regime.
Na prática, podemos estudar linhas de sabonetes com lavanda, óleos corporais, manteigas aromáticas, perfumes e produtos de perfumação de ambientes. A possibilidade de enquadramento depende da composição e do cumprimento integral das condições da categoria, não apenas de uma embalagem artesanal.

A vela aromática Sense é um bom exemplo da importância de ler a norma específica: velas aromáticas aparecem entre os odorizantes de ambiente na IN 474/2026. Isso permite estudar seu enquadramento, sem confundir aromatização de ambientes com uso terapêutico ou cosmético sobre a pele.
A vela não deve ser anunciada como produto de massagem ou repelente apenas porque contém lavanda.
O óleo essencial puro exige cuidado ainda maior.
Seu enquadramento depende da finalidade e da forma de apresentação: matéria-prima para indústria, ingrediente aromático e produto final ao consumidor não são automaticamente a mesma coisa. Da mesma forma, alegações de tratamento de doenças ou efeito expectorante não decorrem simplesmente da origem vegetal do ingrediente.
Nosso óleo essencial você pode comprar aqui: https://santalavanda.com/loja/produto/oleo-essencial-lavanda-dentata/

A Lavandula dentata é multifacetada. E estamos descobrindo isso juntos.
Desde 2017, a Santa Lavanda vem observando no campo o comportamento da Lavandula dentata em condições brasileiras. Nossa experiência envolve mudas, plantio, podas, colheita, destilação, produtos, educação e experiências com visitantes. Uma planta pode abrir possibilidades em muitos segmentos — e justamente por isso precisamos escolher bem cada aplicação.
Estudos identificam no óleo essencial de Lavandula dentata compostos como 1,8-cineol, cânfora, fenchona e linalol, cujas proporções variam conforme o material vegetal e as condições de produção. Compostos como o 1,8-cineol despertam interesse da pesquisa farmacológica e respiratória. Mas a presença de um composto não demonstra, por si só, que o óleo produzido pela Santa Lavanda tenha ação expectorante, nem autoriza alegações medicinais para um cosmético.
É essa combinação de curiosidade científica e prudência técnica que queremos levar para a comunidade: estudar o potencial da planta, sem transformar uma hipótese em propaganda.
A pesquisa sobre pulgões mostra por que devemos continuar estudando
No Radar Científico da Santa Lavanda, discutimos um estudo publicado em 2026 na revista Scientific Reports que investigou a composição do óleo essencial de Lavandula dentata e seus efeitos sobre pulgões de citros em condições experimentais. A pesquisa aponta uma linha interessante para investigação agrícola, mas não comprova eficácia em lavouras brasileiras nem autoriza comercializar nosso óleo como defensivo.
Acesse o Radar Científico sobre pulgões e o estudo original. Nosso papel é transformar ciência em boas perguntas e projetos de pesquisa responsáveis.
Onde estão os mercados da lavanda brasileira?
Consumidor final: produtos que carregam história e identidade
Flores, buquês, mudas, sabonetes, óleos corporais, perfumes, velas aromáticas, sachês e outros produtos podem aproximar as pessoas do universo da lavanda. É nesse encontro entre matéria-prima, experiência e marca que nascem linhas como a Sense, sempre respeitando o enquadramento legal de cada item.
Agro: cultivo, mudas e projetos de implantação
O mercado agrícola envolve mudas, plantas ornamentais, planejamento de áreas, manejo e fornecimento de material vegetal. A demanda por projetos não substitui a necessidade de analisar clima, solo, sol, água, drenagem e manejo de cada propriedade.
Indústria: fornecimento com padrão e rastreabilidade
Óleo essencial, flores e outras matérias-primas aromáticas podem interessar a diferentes indústrias. Mas para atender compradores técnicos é preciso conhecer a identidade botânica, a composição dos lotes, as especificações exigidas e a regularidade de fornecimento. Não basta ter um produto bonito: é preciso demonstrar o que estamos entregando.
Turismo, experiências e educação
Um campo de lavanda também pode receber visitantes, integrar roteiros de turismo rural, inspirar experiências sensoriais e apoiar atividades educativas. Essa diversificação precisa de infraestrutura, segurança e organização comercial. O produtor não precisa seguir todos esses caminhos — precisa descobrir qual deles faz sentido para sua propriedade.
Nosso grande desafio não é apenas vender: é padronizar para atender o Brasil
Quero provocar uma mudança na pergunta que fazemos. Em vez de perguntar somente ‘será que vou conseguir vender meu óleo?’, precisamos perguntar ‘conseguiremos entregar um óleo com qualidade conhecida, documentação e fornecimento regular?’.
A indústria precisa de identidade botânica, composição química, controles de qualidade e rastreabilidade. Para isso, precisamos aprender a registrar a origem das mudas, manejo, momento da colheita, processos de extração e características de cada lote. É um desafio mais complexo do que vender frascos isolados — e pode ser o próximo capítulo da produção brasileira.
Uma rede de produtores pode compartilhar referências técnicas e, futuramente, construir capacidade de fornecimento. Mas seria errado prometer compras industriais ou padronização já concluída. Nosso trabalho é criar as condições para avançar nessa direção.

O ecossistema Santa Lavanda: da curiosidade ao mercado
Foi para conectar essas etapas que passamos a estruturar o ecossistema Santa Lavanda. Ele reúne educação, experiências, produtos, comunidade e ferramentas para planejar e acompanhar a lavanda no campo. Nosso deck de captação sintetiza a jornada: a pessoa chega curiosa, aprende, planeja, planta, acompanha, pode desenvolver produtos e pode encontrar novos caminhos comerciais.
O Programa Raízes é a porta de entrada dessa jornada. A Cidade da Lavanda é nosso espaço de encontro e troca. O Lavanda Solo e o Santo Maps integram nosso trabalho de organização das informações de cultivo. E nossas marcas e canais comerciais representam parte das possibilidades de produtos e negócios que estamos desenvolvendo.
Já formamos 78 alunos, segundo nosso balanço institucional atualizado, com alcance informado em 13 estados brasileiros mais o Distrito Federal, Argentina e Portugal. Alunos formados não são sinônimo de propriedades já implantadas ou de produção disponível — e fazemos questão de distinguir essas etapas.
Cada produtor começa de um lugar diferente. Alguns querem plantar pela primeira vez. Outros desejam compreender melhor solo e irrigação. Há quem pense em flores, em mudas, em visitação ou em ingredientes aromáticos. Um ecossistema existe para aproximar essas pessoas e criar um ambiente de aprendizado e colaboração.
E o marketplace Santa Lavanda?
As novas normas mencionam venda em lojas próprias, feiras, redes sociais, sites e marketplaces próprios, além do apoio de familiares e colaboradores na comercialização em nome do produtor. É uma oportunidade interessante, mas não podemos concluir que qualquer plataforma intermediando produtos de fabricantes independentes esteja automaticamente autorizada pelo regime simplificado.
Estamos estudando como conectar produtores e compradores de forma organizada. Para cada operação, será necessário deixar claro quem fabrica, quem vende, quem emite os documentos fiscais, quem faz a expedição e quem responde pela segurança, reclamações e rastreabilidade dos produtos. A confiança no marketplace começa muito antes do botão de comprar.
Estamos em fase de teste em nossa loja com a Marca Divina Lavanda de nosso amigo Mauro de Caxias do Sul. Creme hidratante de Lavanda dentata. Encontre e compre produto em nossa loja: https://santalavanda.com/loja/produto/creme-hidratante-lavanda-dentata-200g-divina-lavanda/
O que o produtor precisa organizar antes de colocar o produto à venda?
A Anvisa exige cuidados com o ambiente de produção e os utensílios, higiene, respeito à validade das matérias-primas, avaliação da qualidade final e um canal para receber e registrar reclamações. Materiais porosos, como madeira, não são adequados quando dificultam a limpeza. A fabricação artesanal continua sujeita a fiscalização posterior.
Na prática, recomendo organizar a identificação do produtor, o enquadramento sanitário, as fórmulas, os fornecedores, os registros de lotes, as condições de higiene, os critérios de qualidade e os procedimentos para eventuais problemas. Também é indispensável verificar obrigações empresariais, tributárias e locais que não desaparecem por causa da nova regulamentação sanitária.
O rótulo não é só uma etiqueta bonita
A rotulagem exige nome do produto, lista de ingredientes, identificação e endereço de produção, data de fabricação, prazo de validade, peso ou volume, advertências aplicáveis e a expressão ‘PRODUTO ARTESANAL’. As informações devem corresponder à fórmula e à finalidade reais. A Anvisa prevê validade de até 12 meses, o que não significa que toda formulação seja estável por esse período.

Também não devemos utilizar alegações como ‘cura’, ‘trata infecção’, ‘expectorante’ ou ‘repelente’ em publicidade de cosméticos sem o enquadramento e a comprovação exigidos. A história da propriedade agrega valor; ela não substitui transparência e segurança para o consumidor.
É por isso que o planejamento vem antes do plantio
Quando alguém chega até mim perguntando quantas mudas deve comprar, eu devolvo outra pergunta: o que a sua terra está dizendo? Como é a drenagem? Quanto sol recebe? Qual área é realmente útil? Há água disponível? Qual será o investimento e o destino da produção?

O Programa Raízes nasceu para ajudar o futuro produtor de Lavandula dentata a sair do começo no escuro. Não é um curso de fabricação de cosméticos e não promete a compra da produção. É uma mentoria de produtor para produtor, com foco em compreender a área, planejar o cultivo e tomar decisões fundamentadas.
Estamos com vagas abertas. Se você tem terra e deseja começar com método, conheça o Programa Raízes — quero cultivar.
O Brasil pode escrever uma nova história com a Lavandula dentata
Volto à minha visão. Eu, Marcos Romani, acredito que o Brasil pode se tornar o maior produtor de Lavandula dentata do mundo. Não tenho uma previsão estatística que determine quando isso acontecerá. Tenho a experiência de quem começou cultivando em 2017, viu pessoas aprenderem, compartilhou erros e acertos e passou a enxergar uma cadeia produtiva inteira onde antes se via apenas uma flor.
A nova legislação pode ajudar determinados fabricantes artesanais. A ciência pode revelar outras possibilidades. A formação pode preparar produtores. A tecnologia pode organizar dados. E o mercado pode nos desafiar a trabalhar com mais qualidade.
O que nos move não é apenas colocar mais lavanda no chão. É construir projetos duradouros, com cultivo responsável, produtos bem desenvolvidos e pessoas conectadas. Um campo de cada vez, uma família de cada vez, uma raiz de cada vez.
E você: se pudesse transformar a lavanda da sua propriedade em uma atividade, escolheria mudas, flores, óleo essencial, cosméticos artesanais, fornecimento à indústria ou turismo rural? Conta nos comentários. Sua resposta pode inspirar outro produtor.
Um abraço do Tio Lavanda!
Fontes e leitura complementar
- IBGE — Censo Agropecuário 2017. Dados de agricultura familiar e estabelecimentos agropecuários.
https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/25789-censo-agro-2017-populacao-ocupada-nos-estabelecimentos-agropecuarios-cai-8-8 - Anvisa — Conheça as regras para produção artesanal de cosméticos. Publicação de 5 de outubro de 2026.
https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/conheca-as-regras-para-producao-artesanal-de-cosmeticos - RDC Anvisa nº 1.045/2026. Requisitos para produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes artesanais.
- Instrução Normativa Anvisa nº 474/2026. Categorias permitidas, alegações e advertências.
- Bourenane e colaboradores (2026). Chemical composition of essential oil from Lavandula dentata L. to control citrus aphids selectively. Scientific Reports, 16, artigo 18453.
https://doi.org/10.1038/s41598-026-47290-3
Nota: as possibilidades comerciais apresentadas dependem de viabilidade técnica, enquadramento legal e atendimento às exigências aplicáveis. Os resultados da pesquisa científica mencionada não comprovam eficácia terapêutica ou autorização para uso agrícola comercial do óleo essencial da Santa Lavanda.Nota editorial: as novas regras têm escopo específico e não dispensam a observância das demais exigências aplicáveis. Este artigo é informativo, não substitui a leitura integral das normas nem a avaliação do enquadramento sanitário de cada atividade.