Salinidade na Lavandula dentata: o que a água pode mudar nas raízes e no óleo?

Pesquisa de 2024 com Lavandula dentata mostrou como a salinidade da água pode reduzir o crescimento das raízes e o rendimento do óleo. Entenda os resultados, limites e o que avaliar antes de plantar.

RADAR CIENTÍFICO SANTA LAVANDA • EPISÓDIO 8 • 30 DE OUTUBRO DE 2026

Salve, salve! Aqui é o Tio Lavanda!

Deixa eu te fazer uma pergunta: você já analisou a água que usa para irrigar suas lavandas? A gente costuma olhar para a quantidade de água, para a frequência da irrigação e para a drenagem. Mas existe outro detalhe que merece atenção: os sais dissolvidos nessa água.

Uma pesquisa com Lavandula dentata, publicada em abril de 2024, investigou como a salinidade afeta o crescimento, as raízes e até a produção de óleo essencial. Não é estudo desta semana. É pesquisa que vale revisitar porque ajuda quem está planejando o cultivo a fazer uma pergunta antes de plantar: que água eu realmente tenho disponível?

Primeiro, o que é salinidade?

Imagine regar a planta com água que contém quantidade elevada de sais dissolvidos. Mesmo que o solo pareça úmido, a raiz pode ter mais dificuldade para absorver água. Além disso, certos íons podem provocar desequilíbrios e prejudicar o funcionamento da planta.

Encharcamento e salinidade são problemas distintos, embora ambos afetem as raízes. E pH não é a mesma coisa que salinidade: uma análise pode mostrar o pH sem revelar os sais.

O que os pesquisadores fizeram?

Awad Shala, Amira Aboukamar e Mayank Gururani conduziram experimentos em vasos, no Egito, durante as temporadas de 2021 e 2022. Usaram mudas de Lavandula dentata em solo argiloso e compararam água com diferentes níveis de salinidade: controle com água doce, além de tratamentos de 1.000, 2.000 e 3.000 partes por milhão de sais, obtidos pela mistura com água do mar.

Os cientistas também testaram pulverizações de GABA, sigla para ácido gama-aminobutírico, em duas concentrações experimentais. Essa substância participa de respostas fisiológicas das plantas ao estresse. O trabalho não testou um produto comercial brasileiro nem estabeleceu recomendação de aplicação para lavandários.

E o que aconteceu com a dentata?

Quanto maior a salinidade, pior foi, em geral, o desenvolvimento das plantas que não receberam GABA. Os pesquisadores observaram redução de crescimento, massa vegetal, características das raízes, pigmentos associados à fotossíntese e rendimento do óleo essencial.

Vou trazer um número para você enxergar a diferença. Na primeira temporada, o comprimento médio das raízes foi de 12,33 centímetros no controle com água doce e de 8,33 centímetros no tratamento de 3.000 ppm sem GABA. Na segunda temporada, os valores correspondentes foram 14,00 e 10,00 centímetros. São resultados daquele experimento em vasos, não limites universais para a espécie.

O grupo que recebeu GABA apresentou recuperação de algumas características, especialmente nos níveis intermediários de salinidade. Por exemplo, com 2.000 ppm, o comprimento médio das raízes na primeira temporada passou de 10,33 centímetros sem GABA para 12,50 centímetros com 40 mM de GABA. Mas o tratamento não anulou os prejuízos em todas as condições; na salinidade mais elevada, as plantas continuaram sob estresse.

“Então, Tio, é só pulverizar GABA?”

Não! E aqui está o ponto mais importante da conversa.

Os autores estudaram uma hipótese científica em ambiente controlado. Isso não significa que você deva comprar GABA, preparar mistura ou repetir aquelas concentrações na sua lavoura. Não sabemos se o mesmo efeito se repetiria em solo de campo, com outro clima, outro manejo, outras fontes de sais ou em materiais genéticos cultivados no Brasil.

Também não podemos transformar a concentração de sal usada no experimento em regra simples de irrigação. A composição dos sais, a condutividade elétrica da água, a drenagem e o acúmulo no solo mudam a resposta. A pesquisa não demonstrou uma dose segura ou um tratamento pronto para produtores brasileiros.

O que eu faria antes de implantar um lavandário?

Aqui na Santa Lavanda, em Londrina, cultivamos Lavandula dentata desde 2017. Essa experiência de campo não nos torna autores da pesquisa egípcia. Ela nos ajuda a transformar a leitura científica em perguntas práticas.

Antes de decidir onde e como irrigar, eu registraria a origem da água: poço, nascente, reservatório ou rede. Depois buscaria análise de qualidade, incluindo condutividade elétrica, que é uma medida útil para investigar a quantidade de sais dissolvidos. Também observaria o solo, a drenagem e o histórico da área. Se houver suspeita de salinidade, procuraria assistência agronômica para interpretar os resultados em conjunto.

Percebe a diferença? Em vez de descobrir o problema depois que a planta perde vigor, começamos investigando antes de colocar centenas de mudas no chão.

O que esse estudo conversa com os outros episódios?

No Episódio 5, vimos que água e nutrientes podem mudar crescimento e rendimento do óleo. Agora, o foco é outro: o efeito dos sais na água. E no Episódio 7, falamos da qualidade das raízes na formação das mudas. Uma muda bem enraizada continua precisando de ambiente adequado depois do plantio.

É por isso que, no Programa Raízes, o planejamento vem antes da compra de mudas. Conhecer a terra, a água e a drenagem não elimina todos os riscos, mas ajuda a evitar decisões no escuro. Quero planejar meu cultivo de lavanda →

Leia a pesquisa científica original

Shala, A. Y.; Aboukamar, A. N.; Gururani, M. A. (2024). Exogenous Application of Gamma Aminobutyric Acid Improves the Morpho-Physiological and Biochemical Attributes in Lavandula dentata L. under Salinity Stress. Horticulturae, 10(4), 410. Acessar artigo completo e tabelas — DOI 10.3390/horticulturae10040410.

Agora é sua vez: vamos conversar sobre a lavanda?

Você sabe de onde vem a água do seu lavandário? Já fez análise de condutividade elétrica ou percebeu mudança no desenvolvimento das plantas depois de trocar a fonte de irrigação? Conte nos comentários sua região, a origem da água e o que observou. Vamos aprender a fazer perguntas melhores juntos.

Um abraço, Tio Lavanda — Marcos Romani
Santa Lavanda · Aroma e Vida

Foto de Marcos Romani
Marcos Romani

Tio Lavanda
Produtor Rural, Mentor e Fundador da Santa Lavanda.

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